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[ 19.2.09 ]

 
Vale a pena ler:

A Globo, Roliude e cinema nenhum
Por Luiz Rosemberg Filho & Sindoval Aguiar

"Há ídolos de bestificação que só servem ao jargão da propaganda. A
propaganda é a prostituição da ação e, para mim e para a juventude, os
intelectuais que fazem literatura de propaganda são cadáveres condenados
pela força da sua própria ação."
Artaud


Rio de Janeiro – Não ignoramos que o cinema faz parte também de um sólido
conceito de "alienação dominante". O espetáculo e a ideologia burguesa
operacionam o real distanciando-o da verdade como faz a TV. Não foi à toa
que o cinemão se fechou na TV, numa porca demonstração de poder adaptado ao
fetiche do culto do "ator"- mercadoria. Afastou-se da história e da poesia
para se realizar como sucesso e espetáculo televisivo subordinado ao capital
e à burocracia.

Como bem afirmava Debord: "O espetáculo não canta os homens e suas armas,
mas as mercadorias e suas paixões." É preciso, também, enfatizar a forte
importância da mercadoria sobre o pensamento abatido. E que uma vez mais
fetichizado torna-se poder: o de ser como valor para ser consumido e
cuspido! Ter o vazio e a inutilidade como a única referência possível de
algum valor também abstrato. Os astros televisivos bostejam "verdades", para
que nada se modifique. Alguma diferença para os partidos políticos? Mesmo o
tal uso da baixa "humanização" produzida por ambos é para que as coisas
continuem como sempre foram. E o segredo é se apresentar como eternos
enganadores. Desprezíveis, mas poderosos!

Ora, como duvidar dos seus discursos e imagens? Não se tornaram deuses? O
âmbito das desigualdades é para os pobres, bêbados, poetas e sonhadores.
Mesmo assim conhecemos bem a essência da burocracia e não temos porque nos
iludir. Porcos são porcos e não vão além. E é no desprazer da existência
onde encontram alguma satisfação. É onde vão gozar com o possível sofrimento
dos não eleitos. Não entendem ou entendem, mas a grandiosidade da criação
representa para eles convulsões e antipatias. Descerebrados e conformistas,
se alimentam de leis duvidosas, papéis, papelotes e asfixias. O barato agora
é a pontuação, a "notinha", o roteirinho seguindo o idiota do Syd Field...
para continuarem mamando a fundo perdido nas tetas governamentais. O modelo
roliudiano de roteiro a ser apresentado é nitidamente anti-ousadia. Querem
os jovens velhos. E os velhos logo nos cemitérios.

Abominamos tais imbecilidades, mas é com isso que temos que lidar. Mas como
um burocrata que não gosta, nem nunca gostou do nosso cinema, vai dar a sua
notinha ao roteiro, à história, ao currículo... dos nossos projetos? Podem
até estar capacitados para comer os seus excrementos, entulharem-se de
horror e até matar se necessário for. Mas uma vez mais entronalizá-los com
seus vereditos é complicado! Volta-se às torpezas de uma Embrafilme piorada.
Ou seja, significa dizer que resiste um rito inútil de desmoralização e
rebaixamento de uma exposição inútil do humano, do sensível e do saber.

Fundo Setorial para defender a TV, Roliude e os velhos porcos de sempre? Em
momento algum se discute a ocupação nociva do nosso espaço, que faz com que
nenhum filme nosso se pague na bilheteria. É o tal do cinema sem público,
sem tela e sem moral. Mas enfia-se goela abaixo que o tal Fundo Setorial,
orquestrado por energúmenos engravatados, é a nova mágica governamental. A
intenção é clara: o poder de uma vez mais exercer a crueldade. Não foi
sempre assim? A esperteza dos idiotas é se refazer e se multiplicar nos
esgotos da administração pública. Concine, INC, Embrafilme, Ancine... de
falência em falência, o desmoronamento de histórias, vidas e sonhos.

Aí inventaram a nova modinha de um cinema de Fundo Setorial. Mas o que é
isso? Sem dúvida, um cinema em torno de si mesmo! Com o patrimonialismo e os
nossos recursos de impostos, antes de pensar a cultura, uma função social e
um país, atendem privilégios sob o véu de contradições enigmáticas. Assim os
ciclos do cinema se completam nos ciclos de enigmas do patrimonialismo
histórico do poder, em que já fomos um país do futuro, um país pra frente e,
agora, um país de todos! Que todos? Todos, menos as camadas médias e
populares que estão exiladas. Privilégios da nossa eterna revolução
burguesa. Fomos também o país do bolo, este que cresceu somente de um lado,
e solado do outro.

Engraçado, já fomos também um país de Chanchadas, depois um cinema de
Porno-Chanchadas: de mercado e de público, de desentendimentos que nos
levaram ao setorialismo das produções, sem chegar a um projeto
cinematográfico onde os anseios, lutas e esperanças fossem mais abrangentes!
Sabemos que os tempos são outros: o suporte não é mais uma garantia cultural
e um mercado para o filme brasileiro, com reflexos na vida do povo e em uma
ideia de país.

O paradigma de nosso cinema, agora, são as telinhas da Globo, que foram
sempre o paradigma do patrimonialismo brasileiro, que a ditadura setorial e
patrimonialista primou em definir na desnacionalização de nosso capital e de
nossas riquezas materiais e culturais. Restou-nos, como herança salvadora, o
conhecido Mobral (de burocracia empregatícia). Assim vamos seguindo a
revolução burguesa, que ficou definida em 1928 por um importante partido que
se julgava de massas e que não foi além do patrimonialismo, como tudo o que
está partido.

Qual a questão de fundo do setorialismo do cinema nacional? Já está
definida: não sendo mais a questão social e cultural, mas a de mercado
patrimonialista e do paradigma padrão Globo. De rádio, jornais e tevês,
produzindo e reproduzindo o que sempre fomos – os periféricos e dependentes,
compensados! Tudo se esclarece quando, no passado, culpávamos o imperialismo
inglês e depois o americano. Imperialistas internos somos todos nós: só que
isso se chama patrimonialismo (ver Faoro em Os Donos do Poder).

Garotada do celular, organizem-se em entidades de classe como a antiga ABD,
e defendam o cinema, além do celular, essa brincadeira individual de mercado
setorial e nada abrangente. Sem telas, sem condição de uma sobrevivência
profissional, cujo trabalho, além do filme, deveria ser compensado pelas
rendas oriundas do borderô de exibição, ao lado de um público como
infraestrutura de sobrevivência e de avanços cinematográficos.

Ora, se a burguesia revolucionária estivesse realmente interessada em nosso
cinema, no lugar de setorialismo, lutaria pela lei da reciprocidade: para
cada filme americano, um brasileiro lá em suas telas. Uma espécie de
equilíbrio na balança de pagamentos do cinema. Por nosso discurso e nossas
necessidades, nosso governo não nos abandonaria nesta luta. Trata-se de uma
luta social, política, econômica e cultural em busca de uma independência
abrangente, mais hegemônica no sentido gramsciano, e sem esquecimentos das
demais camadas a que já nos referimos, tão fundamentais quanto as Bolsas
Família! E com as Lei de Incentivos sendo melhor aplicadas e mais socializadas.

Essa política de cinema setorial nos leva ao mesmo desastre de outras
políticas já conhecidas: no passado pensamos fazer a união do campo e da
cidade, desencastelando o capital agromercantil, que era nacional,
trazendo-o para uma revolução industrial. Não conseguimos. O campo virou
agronegócio e a industrialização, transnacional! Perdemos o capital! Virou
ditadura. E nos permitiu uma Embrafilme que o patrimonialismo não quis que
salvássemos como infraestrutura básica de sustentação e de desenvolvimento
do cinema, com a revolução burguesa nos esquecendo sempre.

Quem entende muito disso é o Delfim Neto e o ex-colega Roberto Campos,
sócios desse bolo de dupla face e deste cinema setorial. Quer dizer, Fundo
Setorial – padrão Globo! Uma sociedade roliudiana socializando danos e
perdas, e patrimonializando lucros com a carência de nossos recursos
fiscais. Sempre a fundo perdido, pois a teta é farta para os de sempre.
Antes era admissível: eram a cultura e os movimentos sociais. Hoje, o
mercado e o padrão Globo, alavancados pelo patrimonialismo. O sonho acabou.
Retornemos aos dogmas!

14/2/2009
Suzane Jales [2:01 PM]